Descobrindo

Então eu fiquei doente por três dias. E fiquei doente sozinha, num quartinho minúsculo, com pouca comida (eu pretendia fazer compras e não consegui levantar da cama) e sem telefone. A questão alimentação não foi tanto um problema porque eu praticamente não conseguia comer. O que realmente fez uma incrível diferença em mim foi a quantidade de tempo que passei sozinha sem fazer nada.

Já falei antes sobre a solidão e a vida social por aqui, mas nesse contexto as coisas são um pouco diferentes. Com febre e dor, eu não levantei muitas vezes da cama nesses três malditos dias. Sendo assim, botei pra funcionar a única peça do corpo que não me doía tanto: o cérebro. Pensei muito. Sobre tudo que já fiz até agora na viagem, sobre o que ainda quero fazer, sobre as aulas, sobre as pessoas, sobre o meu retorno, são tantas coisas que eu não consigo nem mencionar.

O que mais me surpreendeu foi que, pensando em muitas coisas que aconteceram desde que saí de casa pra passar quase três meses longe eu aprendi tanta coisa nova, mas mais importante, tanta coisa nova sobre mim. Me despi de várias ideias pré-moldadas (e eu sempre tive muitas).  Foi fazendo perguntas e tentando encontrar respostas que consegui começar a me enxergar melhor. E isso é extremamente gratificante!  Depois de tantas novidades, pude perceber que dá pra levar a vida mais leve e mais simples, uma teoria que eu já conhecia e que só agora tô conseguindo comprovar.

Eu espero muito que nada dessas descobertas, nenhuma dessas novas maneiras de ver o mundo me abandone. E ainda, que outras ideias ganhem espaço em mim.

 

* Tirei essa foto minutos antes de tomar um acidental banho de chuva, possível motivo de eu ter ficado doente.

Música para o domingo: Queen – You’re my best friend

O domingo é de sol mas o calor insuportável já foi embora. Continuo dormindo mal mas não posso mais culpar o clima. Enquanto minhas roupas estão sendo desprovidas de vida própria na máquina de lavar, deixo vocês com uma musica bem queridinha.

 

Ah, e feliz dia dos pais!

Viajar sozinha

Viajar sozinha é uma experiência incrível e ao mesmo tempo bastante solitária. As duas coisas se equilibram bem mas as sensações surgem em momentos diferentes, como altos e baixos.

Sozinha eu conheci um monte de pessoas simplesmente pelo fato de eu estar prestando atenção em quem estava ao meu redor. Sem nenhum acompanhante fixo eu também tive que me esforçar e me dedicar a conversar (tá, isso não é muito difícil), contar histórias, convidar pra passeios, etc. Eu pude escolher o que eu queria fazer, na hora em que eu queria e como eu queria. Não precisei ceder dos meus desejos pra que os desejos de outra pessoa tivessem chance. Essa liberdade é realmente gratificante.

Por outro lado, em muitos lugares eu não tive com quem comentar um detalhe daquela casa antiga ou por que eu achei aquele o prédio mais bonito de todos. Também não pude dizer que naquele lugar meu coração se inflou, ficou como se estivesse cheio de coisas maravilhosas e ao mesmo tempo muito leve. Não tenho muitas fotos em que eu apareço nos pontos turísticos porque não quis colocar minha câmera nas mãos de um completo estranho. As vezes eu passo mais de um dia sem conversar com ninguém.

A parte boa é muito boa até o momento em que a parte ruim aparece. Eu me sinto só demais as vezes. Sim, eu fiz vários amigos em todos os lugares que passei, mas sinto falta de uma conexão um pouco mais forte do que ter companhia para sair. Não sei se é possível querer isso quando praticamente todo mundo saiu de casa pra ficar apenas um mês fora. Assim, a cada semana eu faço novos amigos e me despeço daqueles que estiveram aqui por um curto período de tempo. A verdade é que eu sinto falta de amigos com profundidade.

 

A vida na Europa

É claro que eu não quero voltar pro Brasil, mas isso eu já sabia antes de vir. E é apenas um sentimento momentâneo. Tenho certeza de que se eu morasse na Europa por mais tempo eu ia sentir falta de algumas coisas tupiniquins. A verdade é que a maioria das pessoas, ou pelo menos dos jovens, que viajam para qualquer país desenvolvido têm pelo menos uma pontinha de vontade de não voltar pra casa.

O que acontece é que ficamos comparando aqui e lá e muitos aspectos ruins do nosso país de origem ficam ainda mais exaltados. Um exemplo mais do que clássico: transporte. Em grande parte da Europa (e eu digo isso porque não conheço todos os lugares e não posso falar de vilarejos remotos) as cidades, os bairros e os países são conectados por trens, metrôs, ônibus, trams e, sim, aviões. E os preços são ok. (A não ser que a pessoa queira voar da França pra Islândia: custa 1300E). Aí todo dia eu sou lembrada pelo sistema em que me encaixo no momento que há muito tempo eu sonho em morar em um lugar em que eu não precise de um carro pra conseguir chegar no horário.

E não é só o transporte que é mais organizado, pra não dizer melhor. Pagam-se impostos? Sim. Mas pelo menos as pessoas têm algum retorno daquilo que “investem” no seu próprio país. Descobri no final de semana  que na Alemanha é preciso pagar um imposto específico pra ter animais de estimação. Assim todos os bichos são registrados e possuem um chip. Se o seu cachorro se perder, é preciso pagar uma multa por não ter cuidado dele o suficiente. Ou seja, não tem bicho doente, passando fome ou procriando na rua.

Aqui (e lugar nenhum) é a terra das maravilhas. Um exemplo de coisa ruim na França é a  burocracia. Um casal de suecos bem idosos que conheci comentaram que todo mês eles recebem, pelo correio, as receitas dos remédios de uso contínuo subsidiados (inteiramente ou não) pelo plano de saúde do governo. Aí recebe o papel, compra o remédio, devolve o papel com a assinatura da farmácia, vem outro papel de confirmação, manda pro plano de saúde, e assim vai. São três idas e vindas todo mês pra cada remédio que a pessoa toma. Não é uma coisa terrível, mas eu precisava falar de algo ruim, né? Certamente existem coisas mais complicadas e mais nocivas do que isso, mas até o momento foi a informação mais relevante que recebi.

E sim, eu continou querendo ficar por aqui mais um tempo. Quem sabe eu não tô de volta rapidinho?